Leandro Selister

MARCA D’ÁGUA

Uma das definições da expressão marca d’água refere-se a uma imagem visualmente imperceptível, uma assinatura, um selo embutido em documentos para dificultar a falsificação de informações, atestar a autenticidade.

O mês de maio de 2024 vai ficar marcado para sempre na história do estado do Rio Grande do Sul. Oitenta e três anos após a enchente de 1941 em Porto Alegre, o estado foi atingido novamente por uma enchente sem precedentes, devastando cidades inteiras, fábricas, indústrias, levando pontes e estradas. Deixou marcas profundas e um cenário de destruição em 92% dos municípios, incluindo a capital do estado, Porto Alegre.

A série de fotos Marca d´água é uma tentativa de entender a dimensão dessa tragédia e os níveis absurdos de onde a água chegou. Não era suficiente o registro das águas cobrindo ruas e bairros inteiros. Quando as águas finalmente baixaram, um mês depois da chuva não dar trégua, retornei aos locais e comecei a registrar as cenas a partir da perspectiva do meu corpo. Foi dessa forma que pude compreender enfim a dimensão do que havia acontecido. Na grande parte dos locais, eu estaria totalmente submerso. Era uma prova incontestável da invasão das águas e sua destruição.

Passados mais de um ano após a pior tragédia climática no estado, as marcas seguem pelas paredes da cidade bem como o cenário de abandono e destruição. Aliado a isso, o trauma e a sensação de que tudo pode se repetir.

Marca d´água é um alerta, um grito, um desabafo e um pedido para que as autoridades tomem providencias e evitem ou diminuam os impactos de um novo episódio climático. Ele pode vir a qualquer momento. As marcas seguirão profundas e definitivas no imaginário de cada um dos gaúchos. Não podemos esquecer!

Leandro Selister

Setembro/2025

GALERIA

LEANDRO SELISTER

Leandro Selister nasceu em Vacaria, RS, em 1965, e vive e trabalha em Porto Alegre. Artista visual, fotógrafo e designer, desenvolve uma produção que transita entre fotografia, desenho, bordado e intervenção urbana, com foco na observação poética do cotidiano e nas relações entre tempo, afeto e espaço urbano. É bacharel em Fotografia pelo IA/UFRGS onde também atuou como professor, e foi criador do site Artewebbrasil, uma das primeiras plataformas dedicadas à arte contemporânea brasileira na internet. Desde 2016 desenvolve o projeto Leve a Minha Cidade – Perceba, Proteja, Preserve, voltado à valorização do patrimônio histórico e cultural das cidades brasileiras, com o qual recebeu importantes reconhecimentos no campo do design, incluindo o Prêmio Nacional Bornancini de Design, além de seleção para a Bienal Brasileira do Design. Nos últimos anos, seu trabalho também vem sendo reconhecido em premiações e seleções nacionais e internacionais na fotografia, como a Menção Honrosa no 18º iPhone Photography Awards, em 2025, o prêmio no Mobile Photo Festival do MIS São Paulo e sucessivas seleções no MIRA Mobile Prize, em Portugal. Em 2025, realizou a intervenção urbana “O amor vem antes” no Pop Center de Porto Alegre, como artista convidado da Noite dos Museus, e participou de exposições relacionadas à enchente no Rio Grande do Sul, como Post Scriptum, um museu como memória no MARGS. É autor dos livros Há tempo atento ao tempo e (des)amar, crônicas sobre o amor e o cuidar-se, lançado em 2025, além de ensaios e textos publicados em veículos como a Revista Parêntese. Sua obra integra acervos públicos como o MARGS, o MAC/RS e a Pinacoteca Barão de Santo Ângelo.

Portfólio

DEMAIS ARTISTAS

"o olhar crítico e reflexivo da arte diante das catástrofes climáticas"

Iniciativa contemplada no Edital SEDAC/PNAB RS nº 27/2024 - ARTES VISUAIS, que disponibiliza os recursos descentralizados através da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), instituída pela Lei Federal nº 14.399/2022, Decreto Federal nº 11.740/2023, D Instrução Normativa MinC nº 10, de 28 de dezembro de 2023, Instrução Normativa SEDAC nº 04/2024 e legislação correlata.

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