

Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou um dos episódios climáticos mais extremos já registrados no Brasil. Em apenas 15 dias, o volume de precipitação chegou a cerca de 800 milímetros em uma extensa área do estado, um número que, em condições normais, levaria meses para ser atingido.
O caminho das águas: onde tudo começou
Os primeiros sinais mais severos vieram da região do Alto Rio Jacuí. Ali, a intensidade da chuva provocou enxurradas quase imediatas, surpreendendo moradores e estruturas urbanas. Em pouco tempo, o sistema de instabilidade avançou em direção ao Vale do Taquari, onde o cenário se agravou rapidamente. Cidades como Muçum, Lajeado, Estrela e Encantado tornaram-se símbolos da força destrutiva das águas.
A geografia do estado ajudou a explicar — mas não a conter — o desastre. O Rio Taquari, encaixado em vales profundos, respondeu com velocidade: subiu rápido, transbordou com violência e levou consigo casas, estradas e histórias. Já o Rio Jacuí, mais lento e com uma bacia ampla, acumulou volume de forma progressiva, avançando silenciosamente em direção à capital.
A inundação da capital
Quando as águas finalmente chegaram a Porto Alegre, vieram praticamente sincronizadas. Em apenas dois dias, o nível do Guaíba subiu entre três e quase quatro metros, inundando bairros inteiros e alterando drasticamente a paisagem urbana. O tempo de reação foi curto, curto demais. Embora a ciência e a engenharia já permitam prever, com razoável precisão, o comportamento dos rios e o avanço das cheias, nem todos receberam alertas adequados. Em meio ao desespero, muitas pessoas tomaram decisões extremas, como buscar abrigo nos telhados de suas casas, sem saber que, em alguns casos, a água poderia continuar subindo com força suficiente para tornar esses refúgios ainda mais perigosos.
Os números consolidados após a tragédia ajudam a dimensionar a extensão do impacto humano e territorial. De acordo com o balanço mais recente da Defesa Civil, atualizado em agosto de 2025, as enchentes atingiram 478 municípios no estado, afetando diretamente mais de 2,3 milhões de pessoas. Ao longo do período crítico, foram registradas 806 pessoas feridas, enquanto o pico de desalojados chegou a 581.638 em 19 de maio de 2024. O desastre também deixou 23 pessoas desaparecidas e confirmou 185 óbitos. Números que traduzem, em escala, a profundidade de uma das maiores crises socioambientais da história recente do estado. Mas devemos sempre lembrar, que nesse caso, número são pessoas.
Impactos sociais e econômicos: um estado em reconstrução
Os efeitos da catástrofe não se limitaram ao momento da enchente. Quase dois anos depois, o Rio Grande do Sul ainda enfrenta desafios significativos para reconstruir sua estrutura social e econômica. Relatório do Departamento de Economia e Estatística (DEE), vinculado à Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão, aponta que mais de 95% dos municípios gaúchos foram atingidos — um alcance sem precedentes.
Ao todo, cerca de 537 mil endereços foram diretamente impactados, o equivalente a 8,8% do total do estado, enquanto mais de 100 mil famílias em situação de vulnerabilidade precisaram de auxílio emergencial por meio de programas sociais. No campo, mais de 206 mil propriedades rurais foram afetadas. Culturas como soja, milho e arroz sofreram perdas importantes, e a produção leiteira teve prejuízos expressivos, com milhões de litros não coletados durante o período crítico.
Na indústria, maio de 2024 registrou uma queda histórica na produção, reflexo direto da paralisação causada pelas enchentes. O comércio também sentiu os impactos imediatos, mas apresentou recuperação nos meses seguintes, impulsionado pela necessidade de reposição de bens. Já o setor de turismo foi um dos mais afetados, especialmente após o fechamento do aeroporto da capital, acumulando queda significativa ao longo do ano.
No mercado de trabalho, o impacto foi imediato: entre maio e junho de 2024, mais de 30 mil empregos formais foram perdidos, com maior concentração nas regiões mais atingidas. Ainda assim, houve recuperação gradual nos meses seguintes, sinalizando a capacidade de reação da economia gaúcha, embora em meio a grandes desafios.
Os reflexos também atingiram diretamente a educação. Mais de 700 escolas foram danificadas e milhares de instituições tiveram aulas suspensas, comprometendo o calendário letivo de centenas de milhares de estudantes. Na habitação, o desastre expôs a vulnerabilidade de milhares de famílias, exigindo a criação de políticas emergenciais e estruturais para garantir moradia digna aos desalojados.
O cenário climático
O que tornou o episódio ainda mais alarmante foi seu contexto. Os eventos climáticos que antecederam a catástrofe, em setembro e novembro de 2023, e novamente em abril de 2024, já haviam demonstrado um padrão preocupante. Mais do que a intensidade, chamou atenção a frequência. Intervalos que antes seriam de décadas, ou até séculos, comprimiram-se em meses.
A repetição rápida e o aumento da magnitude desses eventos indicam uma mudança profunda no sistema climático. Episódios que seriam considerados raros, com ocorrência estimada a cada 300 ou 400 anos, passaram a acontecer em sequência, evidenciando um novo cenário: um planeta mais quente, mais instável e mais propenso a extremos.
No Rio Grande do Sul, entre 2020 e 2025, esses eventos já ultrapassaram qualquer previsão anterior. Aquilo que se imaginava para a próxima década chegou antes — e com mais força. A tendência, segundo a comunidade científica, é clara: ondas de calor mais intensas, tempestades severas, chuvas volumosas, vendavais e ciclones deverão se tornar cada vez mais frequentes nas próximas décadas.
Caminhos possíveis: adaptação e resiliência
Diante desse cenário, a resposta não pode ser apenas reativa. A única estratégia consistente passa por trabalhar com a própria natureza. Preservar o solo, proteger os recursos hídricos e reduzir o aquecimento global são medidas essenciais para aumentar a resiliência dos territórios e das comunidades.
Mais do que reconstruir o que foi perdido, o desafio agora é aprender a atravessar, com mais preparo, os eventos extremos que, ao que tudo indica, continuarão fazendo parte do futuro e de forma mais frequente e intensa.
Nágila Rodrigues – Jornalista
Fontes:
Maio 24 – Um ano da enchente do RS | GZH DOC
https://www.youtube.com/watch?v=5wZsU8fuFig
Estudo do governo destaca impactos socioeconômicos dos eventos extremos de 2024
https://www.estado.rs.gov.br/estudo-destaca-impactos-socioeconomicos-dos-eventos-extremos-de-2024
Reflexos Submersos é tema de artigo publicado em revista científica na Espanha
O projeto Reflexos Submersos é um dos temas publicados na revista científica adComunica – Estratégias, Tendências e Inovação em Comunicação, lançada em janeiro de 2026 pela Universidade Jaume I, da cidade de Castellón, na Espanha. O artigo tem autoria de Gema Pastor Andrés, professora titular do Departamento de Comunicação Audiovisual e Publicidade da Universidade Rei Juan Carlos, de Madrid.
A iniciativa surgiu do encontro de Gema Andrés com o fotógrafo Felipe Campal, na ocasião de sua viagem a Portugal (outubro de 2025) para participar da mostra “Transversalidades – Fotografia sem Fronteiras”, que reuniu 18 fotógrafos de diferentes países. Artista atuante do Reflexos Submersos, Felipe Campal apresentou sua série “Laranjal”, exposta na mostra portuguesa, à professora Gema Andrés, assim como o projeto Reflexos Submersos. No mês seguinte, por meio de entrevistas – questionário e vídeo-chamada – feitas com Felipe Campal e Emerson Ferreira (coordenador do projeto), Gema Andrés escreveu o artigo e encaminhou para a revista científica, sendo este aprovado para publicação. A revista tem como título “A comunicação diante dos desafios ambientais”.
O artigo está disponível no seguinte link: https://doi.org/10.6035/adcomunica.9302
A seguir, o título e o resumo do artigo: Cultura visual medioambiental desde el sur de Brasil. Reflexos Submersos.
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LA COMUNICACIÓN ANTE LOS RETOS AMBIENTALES – Número 31 · Enero 2026. adComunica. Revista Científica de Estrategías, Tendencias e Innovación en Comunicación.
Universitat Jaume I – Facultad de Ciencias Humanas y Sociales. Departament de Ciències de la Comunicació, Universitat Jaume. Publishing location: Castellón de la Plana, España.
Pastor Andrés, G. (2026). Cultura visual medioambiental desde el sur de brasil. Reflexos submersos. AdComunica, (31), 335–340.
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Resumen:
El artículo se adentra en las características de la cultura visual contemporánea y en sus implicaciones sociales para analizar la iniciativa Reflexos Submersos. A partir de una presentación inicial del proyecto y una entrevista reporteada a dos de sus promotores, exploramos esta acción cultural para entender la comunicación visual medioambiental, la memoria digital de la catástrofe y la movilización social situada. Este artículo revela cómo las problemáticas globales que afectan a comunidades concretas del mundo pueden ser revisadas por ellas mismas para generar narrativas complejas que aportan, desde la experiencia directa, nuevas formas de comunicación de esas catástrofes.

